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Coluna 
  
Na Ponta da Pena
 
por Marcelo De Negri Xavier - CEPEN
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O El Niño e a festa dos peixes
 
A abundância de chuvas tem causado nefastas conseqüências,
sobretudo para o pessoal que mora ou cultiva em áreas baixas e alagadiças,
o que tem sido amplamente noticiado pela mídia.
Passa, porém, despercebido pela maioria da população o conjunto de benefícios
 advindos também do El Niño.
 
Tempos atrás, a região sul do Brasil enfrentava uma longa estiagem,
com a conseqüente penúria dos seus rios.
 
As chuvaradas dos últimos meses trouxeram fartura de água aos rios
justamente no período reprodutivo (primavera e verão) da maioria das espécies de peixes.
 
Quando os rios se alargam para fora do leito,
possibilitam o trânsito dos peixes sobre o solo de campos e matas,
onde há maior oferta de alimento natural como sementes, frutas, raízes,
e pequenos animais como insetos, minhocas, etc.
 
Peixes melhor alimentados produzem desovas mais abundantes
(uma única fêmea de certas espécies de peixe
pode produzir milhões de óvulos por temporada).
Esta profusão de óvulos resulta numa quantidade impressionante de alevinos.
 
Simultaneamente a este processo reprodutivo,
uma outra “fábrica de vida” desenvolve intensa atividade.
Na cheia, os rios e seus organismos alcançam, dissolvem e decompõem
maior volume de matéria orgânica, liberando minerais que fertilizam a água.
 
Água fértil sob a luz do sol produz microalgas (fitoplâncton),
que são base da cadeia alimentar da maioria dos organismos aquáticos,
e isto é tudo o que os  alevinos precisam para seu desenvolvimento inicial.
 
Para os peixes, o velho ditado de que o maior come o menor, é muito apropriado.
Quanto mais comem, mesmo que os da mesma espécie, mais rápido crescem.
Neste ambiente com abundância de alimento, porém,
até o canibalismo entre os jovens é menor.
 
Quando as cheias ocorrem por um período continuado de alguns meses,
a fartura reflete-se na dinâmica das populações de peixes,
que favorecidas, passam muitos meses em abundância.
 
Nesta festa dos peixes em que o rio é o anfitrião,
comparecem o ribeirinho com seu prato,
o turista com sua alegria, o município com sua estrutura, e,
na contabilidade dos lucros,
dão as mãos natureza e economia.
 
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