Queimadas na região colocam o Brasil
entre os maiores emissores de CO2 do planeta, demonstra estudo
Roberta Jansen e Rodrigo Rangel escrevem
para 'O Globo':
De pulmão do mundo a uma vilã
do aquecimento global.
As crescentes queimadas na Floresta Amazônica
estão colocando o Brasil entre os
dez maiores emissores de dióxido de carbono (CO2) do planeta,
ao lado de grandes poluidores como EUA, China,
Rússia e Japão, entre outros.
O C02 é um dos maiores responsáveis
pela elevação da temperatura global.
Um novo estudo do grupo formado por cientistas
da Universidade de Brasília (UnB),
Universidade Estadual de São Paulo
(Unesp), Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe)
e Universidade de Washington para avaliar
as conseqüências das queimadas na Amazônia
revela um dado preocupante:
os incêndios lançam, anualmente,
0,2 bilhão de toneladas de carbono na atmosfera.
Somando-se esse valor ao de CO2 emitido na
queima de combustível fóssil,
chega-se a um total de 0,55 bilhão
de toneladas.
O governo brasileiro trabalha na conclusão
do Inventário Brasileiro de Emissões de Gases do Efeito Estufa,
mas não adianta seus números.
Uma parte importante do documento é
destinada a avaliar o impacto das queimadas na emissão de CO2.
- O Brasil está certamente entre os
dez maiores emissores do planeta em razão do desmatamento
- garante o meteorologista Carlos Nobre,
do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais,
um dos revisores do inventário.
- Comparativamente, o volume de emissões
é muito menor do que o dos principais países,
mas merece ser debatido, principalmente porque
não está levando a um desenvolvimento econômico e social.
De acordo com dados da Administração
de Informação de Energia dos EUA
referentes à queima de combustível
fóssil, os EUA
emitem anualmente 5,75 bilhões e o
Japão 1,2 bilhões.
Mas o volume das emissões brasileiras
já supera o de diversos países industrializados,
como Canadá (0,48 bilhão) e
Itália (0,45 bilhão).
- Os grandes vilões das emissões
de CO2 sempre foram os países industrializados entre outras coisas
porque normalmente utilizamos dados das indústrias
- constata Carlos Alberto Gurgel, professor
do Departamento de Engenharia Mecânica da UnB
e um dos autores do novo estudo.
- Mas o que começamos a verificar
é que, com a queima de milhares de hectares da Amazônia por
ano,
o Brasil está emitindo uma quantidade
estupidamente alta de CO2.
O estudo, destinado a medir a quantidade
de monóxido e dióxido de carbono liberados nas queimadas,
concluiu que cada hectare (10 mil metros
quadrados) destruído
responde pelo lançamento de 69 toneladas
de gases, sobretudo C02.
- O problema é que na Amazônia
os incêndios chegam a atingir 50 alqueires (mais de um milhão
de metros) - diz Gurgel. - Num caso desse, uma única queimada pode
produzir mais de oito mil toneladas de CO2 por dia.
Desmatamento responde por 3% das emissões,
diz governo
O secretário-executivo da comissão
interministerial
incumbida de preparar o inventário
sobre a emissão de gases no Brasil, João Domingos Miguez,
garantiu ontem que os gases gerados pelo
desmatamento das florestas no país
não passam de 3% do total mundial
de emissões.
Ele, no entanto, se recusou a revelar os
dados do inventário.
O relatório já está
pronto, mas sua divulgação vem sendo estudada com cautela
pelo governo,
devido à grande repercussão
internacional do tema.
A divulgação estaria sendo
protelada desde o governo anterior.
O cálculo segue padrões internacionais
estabelecidos pela ONU
para determinar os volumes absolutos de emissões
e é considerado superestimado por Miguez.
O secretário observa que os cálculos
são processados como se toda área desmatada tivesse produzido
gás,
o que não ocorre na maioria das vezes
porque, segundo ele,
na maior parte das derrubadas não
há queima de madeira.
- Mesmo com essa estimativa, o Brasil está
longe de ser um dos maiores poluidores,
está distante dos números dos
Estados Unidos e da China, por exemplo.
Duzentos milhões de toneladas de carbono
não são nada
se comparados aos 7 bilhões produzidos
no mundo por ano - disse o secretário,
que também coordena a área
do Ministério da Ciência e Tecnologia destinada à mudanças
do clima.