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Destaques
de
Primeira
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Vale dos dinossauros
A população do Vale do Paraíba,
em SP,
ganha nesta terça-feira um importante
presente científico.
Trata-se do Museu de História Natural
de Taubaté, que será aberto à visitação
pública.
As 5 mil peças do acervo foram doadas
pelo médico e paleontólogo Herculano Alvarenga
Thiago Romero esreve para a "Agência
Fapesp":
A coleção reúne registros
de diversos animais pré-históricos,
como um fóssil da ave Paraphysornis
brasiliensis, que viveu há mais de 20 milhões de anos no
país.
A peça foi descoberta por Alvarenga
há 28 anos na região de Tremembé, na bacia de Taubaté.
O museu também exibe coleções
de pequenos insetos.
"São mais de 600 metros quadrados
divididos entre as eras Paleozóica, Mesozóica e Cenozóica.
Os eventos evolutivos de cada período
são explicados por meio do surgimento dos animais presentes na exposição",
disse Alvarenga à 'Agência Fapesp'.
Segundo o pesquisador,
entre os destaques científicos do
acervo estão o crânio de um Tyrannosaurus rex,
recebido do Museu de História Natural
de Los Angeles, nos EUA,
e a cabeça de um jacaré gigante
descoberto à beira do rio Purus, na Amazônia.
Também importante são duas
réplicas do Anhanguera piscator,
um pterossauro voador com cinco metros de
envergadura
que viveu no Nordeste brasileiro há
cerca de 110 milhões de anos.
O visitante do Museu de História Natural
de Taubaté
terá a oportunidade ainda de conhecer
desde impressões fósseis das primeiras bactérias,
passando pelos dinossauros, extintos há
cerca de 65 milhões de anos,
até animais que viveram no Brasil
há 12 mil anos.
O Museu de História Natural fica na
rua Juvenal Dias de Carvalho, 111, no bairro Jardim do Sol, em Taubaté.
Os ingressos custam R$ 6. Informações:
(12) 232-7008 / 3631-2928
(Agência Fapesp, 6/7)
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Cidade do vento
Se o projeto da Torre da Liberdade,
que deverá ser erguida em Nova York
onde estava o World Trade Center, for seguido à risca,
30 turbinas eólicas estarão
no alto da construção de 545 metros, para alegria dos defensores
das energias renováveis
No domingo, os EUA comemoraram mais um Dia
da Independência.
A data também serviu para o lançamento
da pedra fundamental da Torre da Liberdade,
que deverá ser construída onde
estavam os edifícios gêmeos do World Trade Center,
em Nova York, no quadrilátero que
ficou conhecido como "ground zero"
após os ataques terroristas de 11
de setembro de 2001.
Do ponto de vista científico,
o projeto do novo arranha-céu está
causando um debate acirrado
entre os defensores das fontes de energias
renováveis
e aqueles que acham que usar o vento para
gerar energia é pouco eficiente.
O assunto foi discutido em editorial da edição
atual da revista Nature.
Caso o projeto da Torre da Liberdade seja
seguido à risca,
30 turbinas eólicas estarão
no seu topo em 2015, quando a construção deverá estar
terminada.
Segundo os cálculos dos arquitetos
e engenheiros,
o vento que moverá as turbinas será
capaz de produzir metade da energia consumida pelo prédio.
Para a engenheira Sinisa Stankovic, da Universidade
de Oxford, na Inglaterra,
o projeto deverá dar grande visibilidade
para a energia alternativa,
fazendo com que os modernos moinhos entrem
nas maiores cidades do planeta,
o que ainda é muito raro.
Entre as poucas construções
que empregam a energia eólica,
uma está em Glasgow, na Escócia,
mas sem turbinas no telhado.
Dutos conduzem o vento para as hélices
no forro do edifício.
Os críticos do uso da energia eólica
em zonas urbanas alegam que o risco de acidentes é bastante grande.
Uma das lâminas, por exemplo, pode
se desprender e atingir pessoas em alta velocidade.
A própria estrutura dos edifícios
também poderia ser prejudicada pelo funcionamento das hélices.
No caso específico da Torre da Liberdade,
os projetistas desenharam um tipo pouco usado
de turbina eólica.
No lugar das gigantescas hélices tradicionais,
serão construídas pequenas
estruturas com lâminas esféricas que girarão ao redor
de eixos horizontais.
Cada uma das 30 turbinas terá uma
potência de cerca de 100 Kw.
Além de diminuir os riscos de acidentes,
as pequenas hélices deverão fazer menos barulho,
outro calcanhar de Aquiles dos modernos moinhos.
(Agência Fapesp, 6/7)
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Antiofídico desenvolvido
no Rio protege roedor sem causar alergia
Grupo da UFRJ já pensa drogas patenteáveis
Pesquisadores da UFRJ sintetizaram um conjunto
de substâncias
que podem se tornar alternativas ao soro
antiofídico.
Derivadas de plantas comuns no Brasil,
essas moléculas foram eficientes em
proteger roedores contra cinco tipos de veneno de serpente,
e sem causar reações alérgicas.
Os potenciais antiofídicos
foram produzidos por um grupo do Núcleo
de Pesquisas de Produtos Naturais da UFRJ,
com base em substâncias que ocorrem
em duas plantas:
a Eclipsia prostata e a Harpalicia brasiliana.
Esta última foi descoberta por Francisco
Matos, da Universidade Federal do Ceará,
e é usada no interior do Nordeste
em garrafadas contra picada de cobra.
Ensaios realizados pelo grupo de Paulo Roberto
Ribeiro Costa e Paulo Melo com camundongos
mostraram que moléculas derivadas
de ambas foram eficazes
em proteger tecido contra o veneno que destrói
as células.
"Se a substância é dada junto
com o veneno, ela protege até 60% do tecido", diz Melo.
A eficiência cai para 25% se a droga
é administrada 15 minutos depois do envenenamento
-intervalo longo para camundongos.
Segundo Costa,
as duas substâncias são capazes
de proteger contra uma grande variedade de venenos de serpente,
enquanto o soro antiofídico tradicional,
derivado do sangue de cavalos,
é específico para um determinado
veneno.
Por serem produzidas por plantas, e não
pelo sistema imunológico de um animal,
elas também causariam menos alergias.
As drogas sintetizadas pelos cientistas do
Rio provavelmente funcionam inibindo a fosfolipase,
uma enzima (tipo de proteína) presente
em concentrações altas no veneno de cobra
que ajuda na digestão dos tecidos.
O grupo está agora desenvolvendo uma
nova geração de moléculas sintéticas,
ainda mais eficientes, já com patentes
em vista.
(Folha de SP, 6/7)
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Novos números da epidemia
de Aids serão divulgados hoje pela ONU
O Brasil levará à conferência,
entre dezenas de trabalhos,
um estudo sobre os subtipos do vírus
HIV em SP,
realizado pela equipe do pesquisador Ricardo
Dias, da Unifesp
Roberta Jansen escreve para "O Globo":
O programa das Nações Unidas
para a Aids (Pnaids)
divulga hoje seu relatório bienal
sobre a situação da epidemia em todo o mundo.
O relatório deverá apontar
o preocupante aumento do número de casos na China e na Índia,
onde a epidemia pode crescer rapidamente.
A divulgação do novo relatório
global ocorre às vésperas do início da 15 Conferência
Internacional de Aids,
que será realizada entre os dias 11
e 16 de julho em Bangcoc, na Tailândia.
Entre os principais temas a serem debatidos
estão a importância do maior
acesso a drogas anti-HIV,
sobretudo nos países em desenvolvimento,
e os novos estudos sobre vacinas e subtipos
do vírus.
O Brasil levará à conferência,
entre dezenas de trabalhos,
um estudo sobre os subtipos do vírus
HIV em SP,
realizado pela equipe do pesquisador Ricardo
Dias, da Universidade Federal de SP (Unifesp).
- Vamos fazer uma apresentação
que mostra o perfil do vírus nas pessoas com infecção
recente
através do seqüenciamento do
genoma completo do HIV - adiantou Dias.
Segundo o pesquisador,
o estudo concluiu que 70% dos novos infectados
em SP apresentam o subtipo B do vírus,
o mais comum na Europa e nos EUA.
Outros 20% apresentam um tipo recombinante
BF.
- A tendência a esses vírus
híbridos é particularmente ruim para a epidemia - apontou
o pesquisador.
- Especialmente porque não há
um perfil genético comum entre os recombinantes.
Isso dificulta, por exemplo, o desenvolvimento
de vacinas.
(O Globo, 6/7)
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A primeira fogueira da Humanidade
Descobertas em Israel provas da conquista
do fogo há 790 mil anos
Arqueólogos israelenses acreditam
ter descoberto
as mais convicentes provas de uso do fogo
por ancestrais humanos.
Espécies humanas que já haviam
deixado a África conseguiram domesticar o fogo há 790 mil
anos,
segundo estudo publicado na 'Science'.
Os indícios, encontrados no norte
de Israel,
sugerem que espécies de hominídeos
como o Homo erectus
tinham um comportamento muito mais complexo
do que o imaginado.
Fósforos primitivos e árvores
queimadas
Pesquisadores da Universidade Hebraica, em
Jerusalém, e da Universidade Bar-Ilan, em Ramat-Gan,
fizeram as descobertas num sítio que
é considerado uma encruzilhada de povos da África e da Eurásia.
O sítio chama-se Gesher Benot Ya'aqov
e fica às margens do Rio Jordão.
Outros sítios mais antigos com sinais
de uso do fogo já haviam sido encontrados antes,
mas sua autenticidade é motivo de
intensa polêmica.
A 34 metros de profundidade, os cientistas
encontraram numerosos instrumentos de pedra
- que poderiam ter sido usados para produzir
fagulhas, como fósforos primitivos.
Além dos instrumentos, os pesquisadores
descobriram ainda restos de vegetais calcinados.
Foram achados restos de pelo menos seis tipos
de árvores, três dos quais comestíveis
- oliveira, uvas e cevada silvestres.
Os cientistas mapearam todo o sítio
e verificaram que os objetos queimados
indicavam a existência de uma espécie
de rede de fogueiras,
que poderia tanto ter sida usada pelo Homo
erectus quanto pelo Homo ergaster,
ou mesmo por espécies arcaicas de
Homo sapiens,
embora essa última hipótese
seja considerada menos provável.
Os Homo erectus e ergaster desapareceram
da Terra há pelo menos 300 mil anos.
Já a classificação Homo
sapiens arcaico é um termo que abrange uma série de hominídeos
que ainda não haviam adquiridos as
características modernas da Humanidade.
A conquista do fogo é considerada
um dos mais fundamentais momentos da evolução humana.
Muitos cientistas consideram a habilidade
de produzir e usar fogo como a mais humana que possuímos.
O parente mais próximo do homem,
o chimpanzé, usa ferramentas e até
mesmo estabelece formas limitadas de linguagem.
Mas, como todos os outros animais, não
consegue controlar o fogo.
Descobrir provas de uso do fogo na pré-história
é muito difícil,
já que incêndios naturais, originados
por raios,
podem ser facilmente confundidos com as fogueiras
primitivas acesas por hominídeos.
Os mais antigos sítios com sinais
de controle do fogo são
Swartkrans, na África do Sul, com
1,5 milhão de anos;
e Koobi Fora, Quênia, com 1,6 milhão.
Porém, as provas não são
aceitas por muitos cientistas.
'O fogo deu aos humanos primitivos uma imensa
vantagem tecnológica,
que mudou seu relacionamento com o mundo',
disse Nira Alperson, integrante da equipe
que realizou o estudo.
Especialistas dizem que o domínio
do fogo proporcionou mudanças radicais na alimentação,
na capacidade de defesa contra animais selvagens
e estimulou a interação social.
(O Globo, 30/4)
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Sexo no espaço vira
tema de debate
Missão ao Planeta Vermelho,
que durará três anos,
levanta discussão sobre
controle dos instintos naturais
Charles Arthur escreve de Washington para
'The Independent':
É sabido que durante a Primeira Guerra
soldados de vanguarda afastados de suas amadas
por longos períodos
tiveram brometo colocado em seus chás
para reduzir a distração causada pelo desejo sexual.
Mas agora sugeriu-se que esta prática
seja levada para bem mais longe: Marte, especificamente.
Num simpósio sobre ''O futuro do homem
e o espaço'', na Sociedade Britânica Interplanetária,
Rachel Armstrong afirmou que a Nasa está
estudando como lidar
com o desejo natural dos astronautas que
fazem longas jornadas,
por exemplo, a viagem de três anos
a Marte,
que levará uma equipe de seis pessoas,
duas delas mulheres.
- A Nasa está falando sobre esterilização
química de astronautas em missões demoradas
- disse Armstrong, numa discussão
sobre os problemas que a humanidade pode enfrentar
na tentativa de chegar a outros planetas
e, eventualmente, às estrelas.
A Nasa não confirmou a notícia.
- Não ouvi falar nada sobre isso
- desconversou o porta-voz da agência
no Centro Espacial Johnson,
que está planejando as futuras viagens
de longa distância,
anunciadas pelo presidente dos Estados Unidos,
George Bush, em janeiro.
Mas a negação pode esconder
relutância
- num país onde mostrar o seio em
rede nacional de televisão provoca gritaria religiosa
- em discutir um assunto tão delicado
quanto sexo no espaço.
Obviamente, alguns cientistas acreditam que
este tópico deve ser comentado clara e diretamente:
- Como em qualquer lugar,
estas pessoas são perfeitamente saudáveis,
sexualmente ativas, têm instinto, vão acabar se envolvendo.
Então, o que vai acontecer no espaço?
Essa é um questão séria
que precisa ser confrontada
- defende Douglas Powell,
um professor de psicologia na Universidade
de Harvard e que foi recrutado em 1999 pela Nasa
para investigar as necessidades comportamentais
em longas viagens pela galáxia.
Cientistas como Powell estão preocupados
com o fato de que uma crise emocional
- numa tripulação onde uns
são mais felizes que os outros
ou onde relacionamentos são feitos
para não serem desenvolvidos - possa ser desastrosa.
O professor lembrou o comentário de
um cosmonauta russo,
sobre o tempo que ficou trancado dentro da
estação Mir:
'Quando você tem duas pessoas presas
num minúsculo ambiente durante meses,
todas as condições para um
assassinato aparecem.
' Misture isso com sexo e você quase
terá o roteiro de Otelo no espaço.
Outros cientistas sugeriram que a melhor
maneira de assegurar que não haja um relacionamento interplanetário
é habitar a nave com astronautas acima
de 50 anos.
- A idéia é que eles não
estarão preocupados em formar uma família,
mas em não se expor à radiação,
porque estão chegando ao fim de suas
vidas economicamente ativas
- polemizou Peter Bond, um especialista britânico
em assuntos espaciais.
- Esta é a idéia também
de que a missão ideal para Marte teria,
falando em termos de Jornada nas Estrelas,
dois Scotts e dois Spocks,
e definitivamente nenhum capitão Kirk
ou Sulus ou McCoy.
Precisa-se dos Scotts para fazer o trabalho
mecânico e dos Spocks para o científico.
Mas ninguém precisa de um Kirk porque
tudo que ele faz é dar ordens
e beijar qualquer mulher que esteja a seu
alcance.
Confusão extraterrestre é um
assunto rodeado de rumores há anos.
Em 2000, o autor francês Pierre Kohler
sustentou que
um 'relatório confidencial da Nasa'
de 1996 mostrou que,
sob ordem da agência, dois astronautas
integraram um ''clube''
a mais de 320 mil quilômetros de altura
como parte de um teste para ver por quanto
tempo humanos podem sobreviver no espaço.
A Nasa negou veementemente a informação,
justificando que o documento mencionado como
relatório
era um texto na internet cheio de erros gramaticais
e factuais.
Do mesmo modo, houve alegações
de que a Rússia fez experimentos em 1982,
quando Svetlana Savitskaya dividiu o espaço
na nave Salyut 7 com dois colegas homens.
Comentários, também na Internet,
dizem que esta foi a primeira tentativa de conceber um bebê espacial.
Mas não há confirmações
sobre isso.
Ao contrário, Savitskaya, que foi
a segunda mulher a viajar ao espaço e a primeira a caminhar no vácuo,
diz em suas memórias que os dois cosmonautas
deram boas-vindas a ela 'com um avental'.
A astronauta jogou a peça fora e estabeleceu
'uma relação profissional' com eles.
Mas a iniciativa rumo a Marte levanta questões
mais difíceis com as quais a Nasa terá que lidar,
mesmo que sempre tenha preferido colocar
o sexo em último lugar na agenda.
Curiosamente, não há proibição
na Nasa para sexo entre tripulantes.
- Dependemos e nos apoiamos no profissionalismo
e no bom julgamento dos astronautas.
Não há nada escrito em nenhum
lugar sobre sexo no espaço - disse um porta-voz da agência,
em 2000.
E isso pode ser parte do problema.
A equipe que for a Marte provavelmente vai
ficar fora da Terra por três anos:
seis meses para ir, dois anos no Planeta
Vermelho
esperando que a Terra volte ao alinhamento
perfeito para a partida da viagem de volta,
que vai durar mais seis meses.
Joanna Wood, do Instituto de Pesquisa Biomédica
Espacial da Nasa,
compara a experiência com o isolamento
de cientistas na Antártica.
Mas estes últimos poderiam ser resgatados,
se fosse absolutamente necessário.
Numa viagem a Marte não há
concessão,
tudo depende de quantidade de combustível
e posição de planetas.
Segundo a especialista, 'o maior problema
não é o sexo em si,
mas ter pessoas que sejam maduras emocionalmente.
Pessoas mais jovens e com um pouco mais de
hormônios podem ser mais impetuosas'.
(Jornal do Brasil, 30/4)
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A palavra da ciência
(clima)
- artigo de Washington Novaes -
Por menos que se queira ou goste, notícias
sobre mudanças climáticas
e temas com elas relacionados se vão
tornando rotina também na comunicação brasileira
(já ocupam papel destacado nos países
industrializados).
E talvez comecem a sinalizar transformações
importantes,
com fortes reflexos em várias áreas,
mas principalmente na econômica.
Esta semana, o primeiro-ministro da Grã-Bretanha,
Tony Blair,
afirmou que mudanças climáticas
são o mais grave problema do mundo no longo prazo:
'Algo está acontecendo com nosso clima.'
E o país acaba de aumentar em 20%
sua meta de redução de emissões de gases (mais 12
milhões de toneladas),
a ser alcançada até 2012.
Nos EUA, um grande grupo de fundos públicos
de pensão, com ativos conjuntos de US$ 800 bilhões
(60% mais que o PIB brasileiro), pediu à
Securities and Exchange Comission
que exija das empresas mais informações
rotineiras e periódicas
sobre riscos financeiros que corram em função
de mudanças climáticas.
A iniciativa dos fundos terá conseqüências
importantes nos mercados financeiros.
Que se juntam ao mercado segurador,
no qual as grandes empresas se estão
recusando a assumir riscos com seguros contra 'desastres naturais'.
Também nos EUA - que continuam se
recusando a homologar o Protocolo de Kyoto
e a reduzir suas emissões de gases
poluentes -
um grupo bipartidário da Câmara
dos Deputados
está propondo legislação
que obrigará o país a não ultrapassar em 2010 seu
nível de emissões de 2000.
Na Europa, 8 dos 15 países da União
Européia
já submeteram seus planos para que
as emissões do continente estejam em 2012 abaixo (8%) das de 1990,
independentemente de o protocolo haver sido
ou não homologado.
A União Européia pretende ainda
pôr em vigor em 2005
um mecanismo que lhe permita - também
com ou sem protocolo -
financiar projetos em outros países
que reduzam emissões e descontá-las de seu total.
Desse mecanismo estão expressamente
excluídos projetos nucleares.
De certa forma,
os europeus apostam em que a redução
acabará se tornando obrigatória em todos os países.
Quem sair na frente, implantar novas tecnologias,
novas matrizes energéticas,
terá vantagens competitivas nos mercados
econômicos.
Não parece descartada a hipótese
de a Europa ainda conseguir a adesão da Rússia
e pôr em vigor o Protocolo de Kyoto.
Os ministros russos de Economia e Indústria
pediram ao presidente Putin que o homologue,
para que o país possa ser beneficiado
na Organização Mundial de Comércio
e receber investimentos europeus em troca
da cessão de cotas de emissões
(os russos reduziram as suas em quase 50%
desde 1990, por causa da recessão industrial, e podem vender cotas)
à União Européia, ao
Canadá e ao Japão.
E entraram em polêmica com o assessor
presidencial Andrei Ilarionov, que defende o contrário.
Tudo em meio a uma controvérsia contábil:
Ilarionov diz que, crescendo seu PIB 8% ao ano,
a Rússia em 2005 já ultrapassará
os níveis de emissões de 1990 (base de Kyoto),
enquanto os ministros dizem que entre 2008
e 2012 o país ainda estará 15% abaixo desses níveis.
De qualquer forma,
47 países e várias instituições
internacionais assinaram há pouco em Tóquio
o plano de monitoramento climático
do planeta (Estado, 26/4),
para poderem melhorar as previsões
de clima
e atuar no combate a doenças afetadas
pelas mudanças (malária, dengue, etc.).
Segundo o International Energy Outlook 2004,
divulgado pelo Departamento de Energia dos
EUA,
até 2025 no ritmo atual as emissões
de dióxido de carbono no mundo
subirão das 23,9 bilhões de
toneladas métricas anuais para 37,1 bilhões.
A Ásia responderá por 40% do
aumento, pois suas emissões sobem à média de 5,1%
ao ano,
contra 3% na média do mundo e 1,2%
nos países industrializados.
No conjunto, os países ditos em desenvolvimento
responderão por 61% do aumento.
A demanda por petróleo passará
dos 77 milhões de barris/dia de hoje para 121 milhões no
mesmo período.
Mas proporcionalmente o maior aumento será
no consumo de gás natural.
É possível que tais números
levem a um aumento ainda maior da pressão interna nos EUA
em favor de redução nas emissões,
dentro e fora do país.
Institutos científicos vêm mostrando
que o derretimento do gelo no Ártico
pode significar uma redução
de 30% nas chuvas na costa oeste do país.
E aquela camada de gelo oceânico já
se reduziu 30% - sem possibilidade de reversão - em três décadas,
segundo o Hadley Centre, que estuda o clima.
Também no Brasil o quadro é
preocupante.
O Sul esteve esta semana com 374 municípios
em situação de emergência, por causa da seca,
enquanto continuava a chover copiosamente
em áreas do Nordeste e do Centro-Oeste
(neste, quase 30% mais em março que
a média histórica).
A ponto de a barragem de Sobradinho haver
precisado abrir comportas,
por estar em 99,56% de sua capacidade de
armazenamento de água,
o mesmo índice atingido por barragens
de usinas no Rio Paranaíba -
que também abriram comportas e inundaram
áreas de turismo classe A.
Os prejuízos com o ciclone/furacão
Catarina chegaram a US$ 1 bilhão só em Santa Catarina,
talvez mais no Rio Grande do Sul.
Não espanta, assim, que cientistas
do conceito de Carlos Nobre
(do Centro de Previsão do Tempo e
Estudos Climáticos do Inpe)
e Reinaldo Haas tenham escrito (Folha de
S.Paulo, 18/4) advertências graves como estas:
'Estamos entrando em terreno totalmente
desconhecido em termos da máquina climática planetária
e devemos esperar surpresas e comportamentos
até mesmo bizarros do sistema climático
em busca de um novo equilíbrio.
Não é ser alarmista imaginar
que o fenômeno 'Catarina' possa ser um pequeno aviso do que nos espera
no futuro.
Estejamos preparados e vamos torcer para
não estarmos inadvertidamente
colocando nosso planeta numa trajetória
irreversível,
para além do limite de habitabilidade
da Terra.
Trata-se de ocorrência hipotética,
de baixa probabilidade, mas que não pode ser descartada.'
Não são palavras de ambientalistas
radicais ou hippies descomprometidos com os fatos.
São palavras de cientistas respeitados.
É preciso prestar atenção.
E dar conseqüência.
(O Estado de SP, 30/4)
A fraude de Piltdown
faz 50 anos
Reinaldo José Lopes para o caderno
'Mais!' da 'Folha de SP'.
Era bom demais para ser verdade. Do alto
da testa à ponta da mandíbula protuberante,
o fóssil era o sonho de qualquer paleoantropólogo
britânico e a confirmação de que a terra de Sua Majestade,
afinal, sempre estivera na liderança,
até quando se tratava de evolução humana.
Não faltavam nem uma cerca-viva (ao
lado da qual o crânio fragmentado foi descoberto)
e um 'taco de críquete' feito com
o fêmur de um elefante.
Mais inglês do que aquilo, parecia
impossível.
O reinado do chamado homem de Piltdown durou
mais de quatro décadas,
desde a sua 'descoberta' em 1911,
mas há 50 anos as modernas técnicas
de datação
finalmente conseguiram desmascarar a fraude
mais espetacular e influente
(embora não necessariamente a mais
bem bolada) da história da paleoantropologia.
Curados da mania nacionalista que os levou
a engolir a farsa,
os britânicos relembram Piltdown desde
a semana passada
com uma exposição no Museu
de História Natural de Londres.
Para a maioria dos pesquisadores, a identidade
do autor da fraude é caso encerrado
- Charles Dawson, embora uma aura de mistério
ainda circunde seus métodos, motivações e cúmplices.
Do ponto de vista dos estudos sobre evolução
humana dos anos 60 em diante,
o homem de Piltdown é uma bobagem
tão descarada
que é difícil acreditar como
alguns dos melhores paleontólogos e antropólogos do planeta
foram capazes de engoli-la.
Seu 'descobridor', Dawson (1864-1916),
chegou mesmo a ser apelidado de 'o mago de
Sussex' (região inglesa onde fica Piltdown) graças ao achado,
divulgado oficialmente diante da Sociedade
Geológica do Reino Unido,
da qual o advogado era membro, em 18 de dezembro
de 1912.
No entanto, seja lá quem tenha preparado
a farsa
(para a maioria dos estudiosos do caso, essa
pessoa é o próprio Dawson)
teve o cuidado de se aproveitar dos preconceitos
dos cientistas da época
e das lacunas que povoavam o conhecimento
sobre evolução humana de então.
Basta dizer que só os fósseis
mais recentes de hominídeos
(a família a que pertencem todos os
primatas mais próximos dos humanos modernos que dos grandes macacos)
já tinham visto a luz do dia.
Fora da África
Esses primeiros humanos fósseis eram
o Homo erectus (ou pitecantropo) de Java, na Indonésia,
o Homo neanderthalensis franco-alemão
e os primeiros exemplares da humanidade moderna,
na época chamados de homens de Cro-Magnon,
franceses.
O detalhe mais importante dessa lista é
que,
apesar das sugestões do naturalista
britânico e pai da teoria evolutiva Charles Darwin (1809-1882),
não havia só um ancestral africano
para a humanidade.
Tudo muito de acordo com a 'ordem natural'
das coisas para a Europa imperialista,
sem dúvida: o berço eurasiático
da civilização também devia ser a fonte da humanidade.
A mais poderosa das nações
européias, no entanto,
ainda estava de fora dessa partilha do mundo
pré-histórico:
'Embora o Reino Unido tivesse antigas ferramentas
de pedra,
não havia evidências de quem
as pudesse ter construído.
Então, surgiu uma expectativa de que
os britânicos conseguissem algo para acompanhar esses outros achados',
conta o paleoantropólogo Chris Stringer,
55,
do Museu de História Natural de Londres
e organizador da mostra sobre Piltdown.
Além disso,
os momentos evolutivos em que os vários
traços típicos do Homo sapiens apareceram
ainda eram completamente obscuros.
Havia quem sustentasse, por exemplo,
que desde os primórdios a humanidade
desenvolvera cérebros avantajados.
Por isso,
grande parte do establishment científico
britânico
sentiu que suas teorias estavam finalmente
comprovadas pelos fatos
quando Dawson e seu colega Arthur Smith Woodward
(1864-1944),
curador de zoologia do Museu de História
Natural,
apresentaram seus 'achados'.
Eram fragmentos cranianos, uma mandíbula,
supostas ferramentas rudimentares de pedra
e ossos de rinoceronte, hipopótamo e castor,
retirados de uma camada de cascalho.
Os restos humanos logo ganharam o nome de
Eoanthropus dawsoni ('homem da aurora de Dawson'),
talvez em homenagem aos 'eolitos',
como eram chamadas as pedras supostamente
trabalhadas que apareceram em Piltdown
e eram comuns em sítios pré-históricos
de todo o Reino Unido.
A grossa calota craniana da criatura tinha
dimensões comparáveis às de um humano moderno,
mas seu queixo era quase inexistente,
e a mandíbula apresentava uma dentição
pouco diferente da de um grande macaco moderno.
A idade estimada para o E. dawsoni era de
500 mil anos.
'Isso se encaixou particularmente com as
idéias pré-concebidas de cientistas britânicos
como Elliot Smith e Arthur Keith,
para quem o cérebro era a marca da
humanidade
e tinha se tornado grande no início
da evolução humana', diz Stringer.
'Por isso,
eles acolheram os achados de Piltdown.
' Isso não quer dizer que a oposição
tenha inexistido, ressalva o pesquisador:
alguns antropólogos americanos, por
exemplo,
questionaram os fósseis desde o começo,
sugerindo que uma mandíbula genuinamente
antiga de primata
tinha se misturado a um crânio humano
mais recente nos estratos do sítio.
Rumores de uma farsa também circularam
logo.
'Mas no Reino Unido
a maioria dos principais cientistas o apoiou',
conta o paleoantropólogo.
No ano seguinte,
enquanto os fósseis eram colocados
em exposição no museu,
Dawson e Woodward voltaram ao trabalho em
Sussex,
acompanhados pelo paleontólogo e padre
jesuíta francês Pierre Teilhard de Chardin (1881-1955),
que já tinha auxiliado a dupla na
primeira temporada de escavações.
Foi o próprio religioso o responsável
por encontrar um canino que faltava na mandíbula do espécime
original,
perto de onde ela aparecera antes.
Pouco tempo depois, no entanto,
alguma coisa muito errada aconteceu no sítio
original.
A escavação acabou revelando
um fêmur de elefante de aparência das mais suspeitas
- trabalhado de forma que lembrava estranhamente
um taco de críquete.
Aquilo já estava ficando ridículo.
'Seja lá quem tenha plantado o taco,
a mensagem era clara:
estamos em cima de vocês e vamos bagunçar
seu sítio', afirma Stringer.
Na tentativa de desviar a atenção
e o embaraço causados por esse achado,
Dawson e Woodward abriram um novo sítio
a 3 km do local original,
encontrando em 1915 novos fragmentos de ossos
humanos e de animais da Era Glacial.
O 'Mago de Sussex' morreria um ano depois
de septicemia,
mas o estrago já estava feito.
Para muitos,
os fósseis do novo sítio representavam
a prova de que o E. dawsoni não era um indivíduo aberrante,
mas uma espécie genuinamente britânica
de hominídeo.
Quando o primeiro ancestral humano da África,
o Australopithecus africanus de Raymond Dart
(1893-1988), foi revelado em 1924,
ninguém lhe deu a menor atenção
- o cérebro era pequeno demais.
Lentamente, no entanto,
descobertas em Java e na África começaram
a fazer com que a balança pendesse contra Piltdown.
Em 1949,
o geólogo e paleontólogo Kenneth
Oakley
conseguiu estimar a idade dos restos com
base na taxa de flúor,
que ajuda a avaliar idades relativas de dois
fósseis do mesmo local:
quanto mais antigo o depósito, mais
flúor o fóssil acumula.
Os restos de Piltdown tinham muito menos
do elemento do que outros fósseis de animais na região.
Finalmente, em novembro de 1953,
uma nova bateria de testes mostrou que o
crânio pertencia a um humano moderno,
com não mais que mil anos de idade,
e que a mandíbula viera de um orangotango.
Produtos químicos tinham sido usados
para fazer com que ela parecesse fossilizada,
e a dentição havia sido alterada
para lembrar mais a de um ser humano que a de um grande macaco.
Culpados e cúmplices
Dezenas de pessoas foram acusadas de envolvimento
com a fraude,
entre elas Teilhard de Chardin e até
o criador de Sherlock Holmes, sir Arthur Conan Doyle (1859-1930),
que vivia perto de Piltdown e mantinha contato
com Dawson.
A descoberta de um baú numa torre
do Museu de História Natural de Londres
levantou fortes suspeitas também contra
Martin Hinton (1883-1961),
assistente voluntário de Woodward
na época dos achados.
Fósseis e ferramentas de pedra guardados
no baú
tinham a mesma cor amarronzada do material
de Piltdown
e haviam sido alterados com a mesma técnica
usada por quem forjou o E. dawsoni.
Hinton teria feito isso para ridicularizar
Woodward,
que não o ajudara a conseguir financiamento
para continuar seu trabalho.
Para Stringer, no entanto,
as evidências ainda apontam para Dawson.
Depois de sua morte, por exemplo, nada mais
foi achado em Piltdown,
e uma série de outras 'descobertas'
suas
- sapos fossilizados, uma espécie
de roedor extinta e uma estátua romana
- se revelaram farsas também.
O 'mago' tinha, pelo visto, uma queda pela
prestidigitação arqueológica.
(Folha de SP, Mais!, 30/11)
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Mentindo ou escondendo
a verdade
Artigo de Isaias Raw
Isaias Raw, professor emérito
da Faculdade de Medicina da USP,
é presidente da Fundação
Butantan.
Foi professor da Escola de Saúde
Pública da Universidade Harvard,
da City University de Nova York
e do MIT (todos nos EUA).
Eu pertenço a uma comunidade universal,
aberta e democrática,
com códigos de ética e autofiscalização.
É a comunidade científica,
que obtém da sociedade recursos para investigar e descobrir.
A fim obter esses recursos,
temos que apresentar nosso projeto de investigação
às agências de financiamento,
onde são submetidas a um grupo de
especialistas, mantidos anônimos,
que dá um parecer sobre a viabilidade
da proposta.
Os resultados são publicados em revistas
internacionais,
onde o artigo submetido é revisto
novamente por um grupo de especialistas, mantidos anônimos, que,
convencido dos dados e conclusões,
recomenda sua publicação, que fica à disposição
de todos.
Começa então um novo ciclo:
baseado na publicação, qualquer
pesquisador pode usar as informações para realizar novas
pesquisas,
que estendem os resultados.
Os resultados já publicados dão
origem a novos experimentos, totalmente diferentes,
que confirmam, ou não, as observações
e, particularmente, a interpretação da publicação
anterior.
Esse é um processo contínuo,
universal, que permite adquirir e comprovar novos conhecimentos.
Essa é a essência de como funciona
a ciência, que deveria ser aprendida na escola média,
preparando a sociedade para compreender,
apoiar, usar e até impor limites à pesquisa científica.
O grande paradoxo de hoje é que o
aumento de educação formal não logra transmitir como
funciona a ciência.
Observa-se uma falta de sintonia, mesmo nas
camadas mais educadas, entre ciência e sociedade.
Às vezes não se trata da dificuldade
de entender conceitos complexos.
Idéias simples são rejeitadas
pela simples ignorância,
como ocorre com muitas pessoas que ainda
imaginam que o homem jamais pisou na lua
e que os filmes mostrados foram 'fabricados'
em Hollywood.
Outros, por simples teimosia, querem impor
opiniões sem base.
Um exemplo simples é, ano após
ano,
uma das mais sérias personalidades
da televisão repetir que o horário de verão não
traz economia de energia,
apesar dos dados das empresas de eletricidade
no Brasil e em todos os países do hemisfério Norte que o
adotam.
Não diferente é a posição
de leigos, ainda que com mandato político,
que teimam em exigir uma demonstração
de que a soja transgênica não afeta a saúde do brasileiro,
como se fôssemos uma espécie
diferente da do norte-americano, canadense ou argentino,
que há anos se alimentam de óleo,
farinha ou tofu produzidos com a soja transgênica.
Uns mentem a soldo de interesses para
que o Brasil não logre produzir mais soja, mais barata,
outros para ganhar espaço na mídia;
ou mentem a si mesmos por simples teimosia irracional.
As pesquisas com transgênicos, alimentos,
vacinas e medicamentos
são cuidadosamente testadas por instituições
rigorosas e acima de influências, como o norte-americano FDA.
Exigir novos ensaios no Brasil constitui
um atraso enorme para poder utilizar esses avanços da tecnologia
moderna,
com prejuízos econômicos ou
sociais.
Imagine questionar a insulina e o fator anti-hemofílico,
hoje quase totalmente produzidos por bactérias
transgênicas
- cerca de 6% da população
e milhares de hemofílicos estariam condenados à morte.
Quando um poder civil ou religioso confronta
as evidências científicas, atrasa o processo,
mas acaba tendo que aceitar a evidência.
Foi assim com Galileu e a Igreja Católica
e assim será com a afirmação
falsa de que camisinhas permitem a passagem dos vírus da Aids (e
da hepatite B).
O reverso aconteceu quando um juiz tomou
uma decisão
obrigando o governo a fornecer um produto
transgênico
para tratar uma centena de pacientes com
uma doença hereditária,
sem levar em conta que cada paciente custa
ao Estado US$ 100 mil por ano,
recurso que poderia evitar a morte de centenas
de prematuros que não logram receber o surfantante,
que custa R$ 200 (e que o Butantan deve brevemente
fornecer a preços menores)
ou diabéticos juvenis que necessitam
de insulina.
A decisão judicial não contempla
a responsabilidade fiscal ou social - cumpra-se!
No outro pólo,
qualquer pessoa que ligar a televisão
assiste arrepiado a um amontoado de mentiras,
vendidas (por dinheiro) conscientemente,
a uma população incapaz de
analisar criticamente o que se lhe empurra.
Na complexa estrutura judiciária,
não se obriga um concessionário
de rádio ou televisão a ser responsável,
evitando que seu espaço seja usado
por verdadeiros vigaristas que vendem águas milagrosas,
que se locupletam à custa da ignorância
da população.
É raro contar com o poder público
para proteger a população ingênua ou induzida pela
propaganda antiética.
Um exemplo raro foi a proibição,
pela Anvisa, de anunciar que a vitamina C
evita ou cura a gripe
- mas ela continua a ser vendida pela propaganda
anterior e pelo balconista da farmácia.
Quando vamos retirar das farmácia
montanhas de outros produtos que,
se não fazem mal diretamente, fazem-no
enganando a população que pensa estar sendo medicada e que,
portanto,
tem sua saúde prejudicada?
Com 77 anos, 50 dedicados à pesquisa
científica e ao ensino das ciências de todos os níveis,
começo a pensar: que a Terra pare
de girar, para eu descer!
(Folha de SP, 30/11)
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