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Coluna 
  
Na Ponta da Pena
 
M. De Negri Xavier - CEPEN 
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O Livre Suicídio da Piscicultura Sul-americana
Ciência, Legislação e Ética
 
A promessa da fantástica e ricamente biodiversa piscicultura sul-americana
"que poderia sanar a fome protéica do mundo", segundo os mais entusiastas,
mal está começando a existir como fenômeno econômico,
e já está descambando para um irretornável lugar comum.
 
Com a popularização das técnicas de indução hormonal para a reprodução das espécies,
qualquer pessoa, mesmo sem o menor conhecimento
das inter-relações ambientais entre as espécies,
e menos ainda, dos fenômenos genéticos implicados,
está agindo livremente sob uma legislação capenga.  Legislação esta,
que não está acompanhando a velocidade dos acontecimentos tecnológicos.
 
Alguns destes "profissionais" de piscicultura, de duvidoso perfil ético,
escondendo-se atrás de uma possível ignorância própria,
aproveitam o atraso da legislação ambiental,
para valer-se da variabilidade genética de certos grupos de peixes,
para fazerem cruzamentos e obterem maiores lucros com os híbridos.
(Veja sobre isto em "Heterose ou vigor híbrido").
 
A raiz do problema está porém, bem mais embaixo.
 
A escassez de recursos para pesquisa em ictiologiaEstudo dos peixes na natureza e pisciculturaProdução de peixes em granjas e fazendas, para consumo.,
e a sua aplicação por vezes mal orientada,
são a base deste problema.
 
 A legislação ambiental, por sua vez,
para existir com consistência, precisa ser amparada em resultados científicos.
Estes, podem demorar alguns anos ou até décadas,
para apresentarem resultados confiáveis
e serem aceitos pela comunidade científica.
 
... e na prática a coisa vai acontecendo mais ou menos assim:
enquanto a ictiologia engatinha jovem, frágil e subnutrida economicamente,
o setor produtivo (a piscicultura) excessivamente livre, faz loucuras biológicas,
mergulhando consciente ou inconscientemente num caminho suicida, mas por hora lucrativo.
 
 Em precários galpões de fundo de granja,
ou até em equipadas universidades,
são feitas toda sorte de "saladas de frutas" genéticas.
 
A coisa é muito fácil.
Mistura-se numa bacia,
milhões de óvulos de uma espécie com o esperma de outra,
para "ver no que dá".
 
Até aí, nada há de mal,
se alguns dos quase microscópicos bichinhos
não escaparem pelo ralo dos encanamentos.
 
O problema começa quando estes peixes cruzados, vendidos ou não,
vão para os tanques de crescimento.
 
Ocorre que a água, pesada e poderosa como é,
"pode ser contida, mas não amarrada", como diz um velho amigo,
e muita dela ainda cai do céu, sem medida certa.
 
Com isto, muitos açudes rompem-se ou "estouram", como diz o linguajar popular,
e lá se vão para a liberdade dos rios, as "nossas" criaturinhas cruzadas.
Há ainda a não rara fuga dos alevinos juntamente com a água que sai dos tanques de piscicultura.
 
Nos rios, estes alevinos constituem-se em elos de ligação genética e comportamental
entre as distintas espécies (ou linhagens, ou grupos genéticos puros) que os originou.
 
Então, estes indivíduos intermediários cruzam com as populações puras silvestres,
misturando e homogeneizando os genes das populações originais que eram distintas por natureza.
 
Resultado:
perde-se as populações puras (espécies, linhagens geográficas, etc.),
e com esta perda de biodiversidade,
perde-se a possibilidade de produção de maneira controlada destes híbridos para sempre.
 
Matando-se a nossa fantástica biodiversidade,
mata-se o nosso grande diferencial sul-americano,
e estabelece-se aqui, o lugar comum.
 
Será que isto é bom para alguém?
Quem está ganhando com isto?
Quem está perdendo?  Você?  Eu?  Nossos descendentes?
E a natureza como fica nesta história?
 
- Ah! Mas agora tem os transgênicos...  - poderia lembrar-se alguém.
Porém, esta técnica apenas transloca artificialmente os genes existentes,
necessitando também de máxima variabilidade genética.
 
A utilização dos híbridos é altamente recomendável para ganhos econômicos,
e largamente utilizada na agropecuária em todo o mundo.
Para que isto ocorra com sustentabilidade também na piscicultura,
a Ciência é que precisa andar à frente,
dominando técnicas para uma segura e perene utilização destes mecanismos biológicos .
 
Na piscicultura, a esterilização genética ou química das populações cruzadas é possível e fundamental,
mas demanda investimento de tempo e recursos em pesquisas.
 
Até lá, urgentíssimas providências precisam ser tomadas para barrar esta insana perda genética,
pois neste caso,
tempo é muito dinheiro,
e para sempre irretornável.
E a natureza, a maior vítima.
 
(CEPEN, Na Ponta da Pena, por Marcelo De Negri Xavier, em 30/07/2000)
 
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